“O SINAL E O NÚMERO DA BESTA”


Samuele Bacchiocchi, Ph. D.
Professor aposentado de Teologia e História Eclesiástica, Universidade Andrews [Berrien Springs, Mich., EUA]

      Ao longo dos séculos, os cristãos têm especulado sobre o sentido do “sinal da besta” e o número 666, mencionado em Apocalipse 13. Hoje em dia o interesse continua firme a respeito desses acontecimentos do tempo do fim, envolvendo o Anticristo que controlará a vida econômica, política e social da humanidade, colocando um sinal e um número sobre as pessoas.
       Em campanhas evangelísticas, o sermão sobre O SINAL DA BESTA geralmente atrai os maiores públicos e convence mais pessoas sobre a validade e importância do sábado do que qualquer outro dos temas. O mecanismo de pesquisa GOOGLE contém mais de cinco milhões de referências sobre “O sinal da Besta” e o seu número “666”.
       Numa época de incerteza política e econômica, quando o terrorismo e os desastres naturais estão ameaçando a segurança e prosperidade de inúmeros países, muitos cristãos vêm recorrendo às profecias bíblicas para descobrirem o que irá acontecer no futuro próximo.
       O texto-chave que tem sido objeto de infindáveis especulações é Apocalipse 13:16-18. A razão é que essa passagem fala do sinal, do nome e do número da besta que será colocado na mão direita e testa das pessoas: “[A Besta] fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes fosse posto um sinal na mão direita, ou na fronte, para que ninguém pudesse comprar ou vender, senão aquele que tivesse o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome. Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis”.
       Nessa profecia é-nos dito que a geração final receberá o sinal da besta. Somos informados de que o sinal da besta é o nome da besta, e o nome da besta é o seu número, 666. Em outras palavras, o sinal, o nome e o número da besta, 666, são essencialmente a mesma coisa. Dos três, o número 666 é o mais importante porque propicia o código para interpretar o nome e sinal da Besta.
        O apelo é por sabedoria para entender o Número 666, da Besta, antes que o Nome ou Sinal da Besta. Aparentemente, a razão é que o significado do número 666 é também o sentido do nome e sinal da Besta. O fato de que os três constituem uma unidade indissolúvel deveria servir de advertência aos estudantes da Bíblia contra atribuir um sentido ao Sinal da Besta e outro sentido diferente ao Número da Besta.
        Por exemplo, os adventistas tradicionalmente têm interpretado o sinal da Besta como sendo a imposição da observância dominical, e o Número 666 da Besta como o título papal VICARIUS FILII DEI, supostamente inscrito na tiara papal. Veremos que essa interpretação apresenta um problema porque diferencia entre o Sinal e o Número da Besta. Tal diferenciação dificilmente poderá justificar-se exegeticamente, porque o texto sugere que o sinal, o Nome e o Número são essencialmente a mesma coisa.
       A unidade entre os três se expressa em traduções modernas, como a NIV, que tornam evidente que o sinal, o nome e o número são todos parte integral da mesma estratégia para promover a falsa adoração da Besta.

A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA


      Eu tratei com muita seriedade esta tarefa porque creio que esta pesquisa poderá beneficiar milhares de pastores, professores, evangelistas e adventistas estudiosos que estão em busca de uma interpretação mais satisfatória do sinal e número da Besta. Ultimamente, mesmo nossos principais evangelistas têm-me contactado antes de suas campanhas em rede para obterem atualização quanto ao uso do título papal VICARIUS FILII DEI. Eles desejam precisão em suas apresentações, transmitidas via-satélite a milhares de pessoas em diferentes partes do mundo.
       Durante cruzadas evangelísticas, o sermão sobre O SINAL DA BESTA, geralmente atrai os maiores públicos e leva mais pessoas a aceitarem o sábado do que qualquer outra apresentação. Assim, é imperativo assegurar que nossa interpretação do sinal e Número da Besta sejam precisos tanto bíblica quanto historicamente.

OS OBJETIVOS DA PESQUISA

      O estudo tem dois objetivos. O primeiro é situar historicamente a interpretação numérica do número 666 da Besta. O segundo é examinar o uso bíblico simbólico dos números em geral, e 666 em particular. Veremos que João emprega números para propiciar uma base humana para conceitos que transcendem definição humana.
       Na primeira parte de uma conferência a respeito mostro, com o auxílio de 70 slides, as várias interpretações passadas e presentes do críptico número 666. É impressionante ver quantos nomes podem ser manipulados de modo a que o valor numérico das letras somem 666. Historicamente, tentativas têm sido feitas para identificar o número 666 com os nomes de personagens tão destacadas quanto Calígula, Nero, Domiciano, Maomé, Napoleão, Hitler, Ronald Reagan e o falecido Papa João Paulo II.

SINAL E NÚMERO ELETRÔNICOS DA BESTA

      Com o advento das leituras óticas por laser e o código universal de barras, autores evangélicos populares têm abandonado em grande medida a tentativa de identificar o Sinal e Número 666 do Anticristo com o valor numérico de nomes de possíveis candidatos. Em vez disso, estão em busca do número em código de barras e biochips. Crêem que João descreve os últimos progressos eletrônicos no mundo comercial: sistema mundial de bancos, leitura ótica e o código universal de barras.
       Alguns estão promovendo a idéia de que o Sinal e Número da Besta será um código de barras invisível tatuado na mão ou na testa, mas visível somente sob luz ultravioleta. Isso tornará possível escanear pessoas mais facilmente do que por cartões de crédito. Incidentemente, o código de barras é dividido em duas partes por três marcadores que representam o número 6, como ilustrado na parte de slides deste estudo.
       Em sua popular série Deixados Para Trás, Tim LaHaye e Jerry Jenkins popularizaram a crença de que a diabólico sinal da Besta consiste num biochip implantável, ligado a uma rede mundial de controle. “O diminuto biochip com os números de sufixo nele gravados pode ser implantado de forma tão indolor quanto uma vacina, em questão de segundos. Os cidadãos podem escolher qualquer das localizações, e o que será visível é uma cicatriz fina, de meia polegada, à sua esquerda imediata, tendo em tinta negra de seis pontos—impossível de ser removida sob pena legal—o número que designa a região de residência de um indivíduo. Esse número pode ser incluído no chip implantado, caso a pessoa prefira que uma das variáveis do nome do potentado apareça em sua carne” (The Mark: The Beast Rules the World, 2000, p. 86).
       O problema com essas interpretações sensacionais envolvendo eletrônica quanto ao sinal da Besta é a falha em reconhecer que códigos de barra, escaneamento e biochips não existiam ao tempo de João. Ele dificilmente poderia instar seus leitores contemporâneos a serem sábios para buscar entender o número humano 666, quando não havia barras de código eletrônico e biochips.
       Ao interpretar o simbolismo do Apocalipse, é indispensável procurar entender primeiro de tudo o sigificado do simbolismo dos primeiros a receber o livro. É lamentável que a vasta maioria dos intérpretes evangélicos não faça tentativa em entender o sentido do simbolismo aos leitores originais de quando Apocalipse foi redigido. Ignoram que o Apocalipse foi escrito para encorajar os cristãos a permanecerem fiéis numa época em que a promoção do culto ao Imperador desafiava a sua lealdade a Cristo.

NA SUA MAIORIA OS ADVENTISTAS PREFEREM A INTERPRETAÇÃO NUMÉRICA

      A maioria dos adventistas não tem aderido à interpretação eletrônica do sinal da Besta. Preferem apegar-se à interpretação histórica desenvolvida no período que se seguiu à Reforma. Essa interpretação histórica identifica o número 666 com o título papal VICARIUS FILII DEI—significando VIGÁRIO DO FILHO DE DEUS. Esta frase tem sido utilizada por papas durante séculos para defenderem sua autoridade eclesiástica e temporal. O valor numérico atribuído às letras dessa frase somam 666, como demonstrado nos slides.
       Essa interpretação foi introduzida relativamente tarde na Igreja Adventista. Ela aparece primeiramente, como veremos, em 1884 no livro de Urias Smith chamado The United States in the Light of Prophecy [Os Estados Unidos à luz da profecia].  
       Desafortunadamente alguns adventistas ultrazelosos tiraram algumas fotos genuínas das tiaras papais e lhes acrescentaram o texto com os dizeres VICARIUS FILII DEI.

A ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS TÍTULOS PAPAIS

      Antes de discutir a suposta inscrição VICARIUS FILII DEIsobre as tiaras papais, é de auxílio considerar a origem e evolução dos títulos papais. A evolução dos títulos do Papa em grande medida reflete o aumento na autoridade eclesiástica e temporal do papa, de UM ENTRE IGUAIS--UNUS INTER PARES para PRIMEIRO ACIMA DE TODOS—PRIMUS SUPRA OMNIA.
       Após a queda de Jeruslém, o Bispo de Roma emergiu como o líder eclesiástico mais influente, em grande medida dada a localização geográfica e política de sua Igreja na cidade que era capital do Império. Mas durante o primeiro sécuulos ele era conhecido simplesmente como O BISPO DE ROMA.
       A partir do segundo até o fim do quarto sécuulo, o Bispo de Roma reivindicava ser “O Vigário do Príncipe dos Apóstolos—Vicarius principis apostolorum,” ou seja, “O VIGÁRIO DE PEDRO”.
       De “Vigário de Pedro” o Bispo de Roma gradualmente garantiu sua autoridade reivindicando ser o “VIGÁRIO DE CRISTO”. No princípio do quinto século, o Bispo Inocente I (401-417) insistia em que Cristo havia delegado supremo poder a Pedro tornando-o Bispo de Roma. Como sucessor de Pedro, o Bispo de Roma tinha direito de exercer o poder e prerrogativas de Pedro. Bonifácio III, que se tornou Bispo de Roma em 607, estabeleceu-se como “Bispo Universal”, assim reividindicando ser o vigário e mestre de todos os bispos.

A ORIGEM E USO HISTÓRICO DE VICARIUS FILII DEI

      O título particular VICARIUS FILII DEI aparece pela primeira vez no fraudulento documento “A DOAÇÃO DE CONSTANTINO”. Esta é a mais famosa fraude documental na história da Europa e desempenhou um papel incalculável em reforçar o poder temporal do papado durante a Idade Média. Na versão em CD-ROM deste estudo se poderá ver a magnífica pintura de Rafael no Museu do Vaticano, retratando o Imperador Constantino ajoelhando-se aos pés do Papa Silvestre, e entregando-lhe uma estatueta de Roma Aeterna (Eterna Roma). Esse ato simboliza a transferência de poder do imperador ao papado.
       Segundo o documento forjado, Constantino afirma que quando foi batizado pelo Papa Silvestre, em A.D. 324 (na realidade ele não foi batizado senão em 337 A.D.), ele presenteou ao Papa o palácio de Latrão e toda a insígnia imperial, juntamente com territórios do Império Romano Ocidental. O documento declara que o Imperador fez essa generosa doação ao Papa Silvestre I porque o papa é o VICARIUS FILII DEI—O VIGÁRIO DO FILHO DE DEUS. A verdade é que Constantino doou ao Papa Silvestre somente o Palácio de Latrão, que havia sido residência de imperadores e, por último, de sua esposa Fausta. Nenhum território do império ocidental havia sido doado ao papa.
       Esse documento fraudulento foi forjado no oitavo século por clérigos católicos inescrupulosos. A meta da falsificação era comprovar que territórios italianos dados ao Papa em 756 pelo Rei Franco Pepino, mais tarde reconfirmados por Carlos Magno, pertenciam ao Papa primeiramente, já que ele os havia recebido cinco séculos antes do Imperador Constantino. Assim, os reis francos não estavam concedendo, e sim retornando terras papais que haviam sido ilegitimamente tomadas do papa pelos lombardos.

[Continua na próxima página]

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