A
história do nome de Jesus
Apresentação
e comentário:
O
artigo abaixo demonstra que o nome de Jesus nada tem que ver com
a adoração de animais. Ele remete-nos a algumas conclusões
como a de que apenas os inimigos do cristianismo procuraram fazer
ligação entre a adoração a Jesus e a adoração a um jumento
(não a um cavalo).
Muito
ao contrário da idéia daqueles que fazem ligação entre o
hebraico sus, cavalo, e a terminação do nome Jesus em
grego (Iesus), essa é uma semelhança meramente
aparente e sem nenhuma relação lingüística. Mesmo sem tentar
fazer essa ligação entre a palavra sus (cavalo em
hebraico) e o nome de Jesus, os pagãos, e não cristãos fiéis,
é que tentaram desmoralizar o cristianismo, aludindo à morte do
Salvador na cruz como evidência de fraqueza, e a entrada humilde
do Salvador em Jerusalém montado em um jumento como desculpas
para blasfemar do Redentor. Talvez esteja aí a origem de um
desenho feito no período romano, retratando o Senhor Jesus como
um jumento crucificado.
Ao
contrário do que alguns têm tentado provar através de
argumentos desprovidos de fundamentação séria, nunca,
em nenhuma época, os cristãos entenderam ou declararam que a
pronúncia do nome )Ihsou=v
(Iesus), se
referisse a qualquer deus-cavalo ou deus-jumento ou tivesse
qualquer origem na palavra “sus” (cavalo).
Em
português a ligação de sus (cavalo em hebraico) e o
nome Jesus é mais absurda ainda. Porque a última sílaba do
nome Jesus começa com som de “Z” e além de não ter nenhum
vínculo lingüístico com a palavra “sus” (cavalo no
hebraico) esta última tem som de “S”, não havendo entre as
duas nem mesmo semelhança fonética.
Toda
essa analogia e interpretação que liga o nome de Jesus com a
adoração de um deus-cavalo revela a sua origem da parte de
curiosos, que manipulam de forma inconseqüente e fanática dados
históricos e lingüísticos além de sua competência, o que
serve apenas para iludir e desviar incautos.
Pr.
Demóstenes Neves da Silva
O
Nome de Jesus e a Calúnia da Onolatria: Breve Análise da Evidência
Epigráfica,
Literária
e Arqueológica
por
Milton L. Torres
Resumo
Este
artigo traça a história etimológica do nome de Jesus e procura
demonstrar, através das evidências literárias e arqueológicas,
que não existe conexão alguma entre a etimologia do nome e a
calúnia dirigida, na Antigüidade, contra os cristãos de que
seriam eles adeptos da onolatria, a adoração de um asno.
Abstract
This
article traces the etymological history of the name of Jesus and
seeks to establish, through an analysis of the literary and
archaeological evidence, that there have never been any
connections between the etymology of the name and the ancient
calumny that the Christians worshipped an ass-god.
Nos
evangelhos, Jesus é chamado apenas de Cristo em quase trezentas
passagens, pelo nome de Jesus Cristo ou Cristo Jesus em menos de
cem passagens, e pelo nome de Senhor Jesus Cristo menos de cinqüenta
vezes. Antes de Sua ressurreição Ele é geralmente chamado de
Jesus Cristo, mas após a mesma recebe, preferencialmente, a
designação de Cristo Jesus. Nosso Senhor não é o único
personagem bíblico a receber o nome de )Ihsou=v
[Iesous]. Na
genealogia do evangelho de Lucas, aparece Jesus, filho de Eliezer
(3:29). Jesus, chamado Justo, era também o nome de um dos
companheiros de Paulo mencionados em Colossenses 4:11. Josué é
chamado de )Ihsou=v [Iesous]
em Atos 7:45 e Hebreus 4:8. Além disso, Barrabás é chamado de
Jesus em Mateus 27:16, enquanto que o feiticeiro de Chipre é
identificado como filho de Jesus em Atos 13:6 (Barihsou=v
= [wvy
rb, Barjesus).
A
História do Nome de Jesus
)Ihsou=v
[Iesous] é o
nome que a Septuaginta usa para alguns personagens do Antigo
Testamento. Vale lembrar que a Septuaginta era a versão bíblica
usada por todos os judeus da Diáspora e por muitos judeus que
viviam em Jerusalém na época de Jesus, pois esta havia sido
traduzida para o grego por setenta e dois rabinos uma vez que o
grego se tornara a lingua
franca daquele
período. A forma grega equivale ao nome préexílico [vwhy
[Iehosheah] e ao
pós-exílico [wvy [Ieshuah],
este dado ao sumo-sacerdote Josué nos livros de Esdras e Neemias
e aquele dado, primeiramente, a Josué, filho de Num, nos livros
de Êxodo, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 Reis 16:34
e 1 Crônicas 7:27, mas também dada a dois outros homens em 1
Samuel 6:14, 18 e 2 Reis 23:8.
O que os
tradutores da Septuaginta fizeram foi reter a forma mais curta do
nome e acrescentar o “s” final para facilitar a declinação
do nome na língua grega. Obviamente o Novo Testamento confirma a
equivalência exata entre a forma grega )Ihsou=v
[Iesous] e a
hebraica [wvy [Ieshuah]
ao se referir duas vezes a Josué sob o nome de )Ihsou=v
[Iesous]: Atos
7:45 e Hebreus 4:8.
O
nome de Jesus era, até o início do segundo século depois de
Cristo, um nome muito popular entre os judeus. De acordo com a Epístola
de Aristeas 48:49,
três entre os
setenta e dois tradutores da Septuaginta se chamavam Jesus.
Josefo menciona cerca de vinte pessoas com este nome, dentre elas
dez contemporâneos de Jesus Cristo. Além da evidência literária,
a arqueologia também dá testemunho da ocorrência do nome grego
)Ihsou=v [Iesous]
como equivalente ao hebraico [wvy
[Ieshuah] muito
antes do nascimento de Jesus. Os renomados e antiqüíssimos
papiros de Oxyrhynchus (4.816) empregam a forma grega já no
sexto século antes de Cristo.
Uma inscrição
funerária do séc. I antes de Cristo, encontrada no início do séc.
XX e publicada na Revista
Epigráfica francesa
por Seymour de Ricci em 1913, representa um bom exemplo do uso
corriqueiro da forma grega. Um papiro encontrado na colônia
judaica de Apolonópole Magna, no Egito, traz diversos outros
exemplos de seu emprego por judeus de fala grega.
Após
o séc. II depois de Cristo, o nome Jesus desaparece como nome próprio,
exceto entre os rabinos. Com efeito, o nome Jesus como nome próprio
não é encontrado nem mesmo nas abundantes inscrições oriundas
das catacumbas romanas.
Nos escritos rabínicos,
Jesus de Nazaré é quase sempre chamado de wvy
[Ieshu] e o
Talmude usa este nome apenas em referência a Ele.
Este
desaparecimento tanto da forma grega )Ihsou=v
[Iesous] quanto
da hebraica [wvy [Ieshuah]
como nome próprio sugere duas coisas: os cristãos
estariam evitando o nome por respeito à pessoa de Jesus Cristo e
os judeus o estariam evitando a fim de não demonstrarem qualquer
simpatia ou identificação com Ele.
Conforme
mencionado acima, o nome de Jesus não aparece como nome próprio
nas catacumbas romanas e tal era o respeito dos cristãos
primitivos pelo nome que as inscrições dos primeiros séculos
da era cristã são igualmente omissas quanto a ele mesmo em
referência à pessoa de Jesus. Enquanto o nome Cristo é
plenamente atestado nelas, o nome Jesus é bastante raro. Uma
inscrição funerária encontrada na Via Salária Nova e agora
guardada no Museu Laterano, em Roma, traz os dizeres “Que
Regina viva em Jesus” em latim. Uma outra inscrição
encontrada no antigo cemitério de Salona, na Dalmácia, traz os
dizeres “Saudações em Jesus Deus” em grego: en
theo Iesos cherete.
Uma
outra inscrição do cemitério de Domitila lê-se:
“Secundiano, que cria em Jesus Cristo, terá vida no Pai, no
Filho e no Espírito Santo” (em latim: Secundianus
qui redidit in Cristum Iesum vivet in Patre et Filio et Ispirito
Sancto).
Apesar dessa ausência conspícua de referências a )Ihsou=v
[Iesous] na
epigrafia cristã, não se pode dizer que a omissão tenha tido a
intenção de rechaçar o nome já que o símbolo do peixe (ichthus,
em grego) interpretado como um acróstico para “Jesus Cristo,
Filho de Deus, Redentor” é encontrado, com muita freqüência,
nas inscrições mais antigas da cristandade, conforme o afirma o
Professor Orazio Marucchi, que ensinou arqueologia cristã por
muito tempo na Universidade Real de Roma.
Às vezes o próprio
acróstico aparece em vez do símbolo, como acontece com inscrições
dos cemitérios de Calisto, do Vaticano e de Ciríaca, agora
guardadas no Museu Laterano ou no Museu Kircheriano, em Roma.
O
testemunho textual favorável ao nome )Ihsou=v
[Iesous] é
inquestionável. Assim grafam o nome de Jesus todos os mais
antigos e confiáveis manuscritos da Bíblia. De fato, o nome )Ihsou=v
[Iesous] aparece
desde os mais antigos manuscritos cristãos. O assim-chamado
Papiro Egerton 2, que é, juntamente com o Papiro Rylands 457, o
mais antigo manuscrito da tradição evangélica, confirma tal
fato. Apenas dois pequenos fragmentos deste papiro pertencente
aos primeiros anos após a morte de João foram conservados.
Apesar de conter apenas umas poucas linhas, o papiro usa o nome )Ihsou=v
[Iesous] três
vezes.
A
Etimologia do Nome de Jesus e a Calúnia da Onolatria
As
discussões sobre a etimologia do nome )Ihsou=v
[Iesous] começaram
mesmo antes de este nome ter sido dado a Jesus Cristo e de este
ter-se tornado mundialmente conhecido. Filo de Alexandria, um
pensador e exegeta judaico que viveu entre 20 a.C. e 50 A.D., é
o primeiro a sugerir a existência de duas partes constitutivas
no nome. De acordo com ele (Mut.
Nom. 121), as
duas primeiras letras são a forma abreviada do tetragrammaton,
o sagrado nome de Deus Pai, e o restante do nome é uma forma do
verbo soizo,
que significa “salvar”. Clemente de Alexandria, um teólogo
ateniense que viveu entre 150 e 215 A.D., liga o início do nome
também ao verbo iaomai,
que significa curar (Pedagogo
3.12.98). Por
isso, Cirilo, bispo de Jerusalém que viveu entre 315 e 386 A.D.,
afirma categoricamente que Jesus significa “Salvador” em
hebraico e “aquele que cura” em grego (Cataquese
Mistagógica 10.13).
Contudo, pode-se afirmar, com certeza, que as explicações para
uma etimologia dupla do nome )Ihsou=v
[Iesous] não
passam de especulações. De acordo com Karl Heinrich Rengstorf,
professor de teologia em Loccum, na cidade de Hannover
(Alemanha), e responsável pelo verbete )Ihsou=v
[Iesous] no
renomado Dicionário
Teológico do Novo Testamento,
editado por Gerhard Kittel, Assim sendo, pode-se afirmar,
categoricamente, que uma suposta etimologia do nome )Ihsou=v
[Iesous] que o
subdivida em duas raízes, a primeira referente ao nome de Deus e
a segunda referente à palavra hebraica sus,
“cavalo”, dando a entender que o nome significaria
“Deus-cavalo”, não passa de fabricação pouco convincente,
mesmo porque a etimologia de um nome grego deveria ser
preferencialmente explicada com radicais gregos ou com radicais
de uma língua da qual o grego se originasse. A passagem nas Histórias
(5.3.4), do
historiador romano Tácito (séc. II A.D.), não se refere
absolutamente a uma prática da onolatria por parte dos cristãos.
Tácito, de fato, calunia os cristãos, em seus Anais
(15.44), de terem incendiado Roma e de terem grande ódio
pela raça humana.
Tecnicamente, Tácito
jamais acusou os cristãos de adorarem um asno.
A
acusação de Histórias
5.3.4 é
dirigida aos judeus. Nesta passagem, o historiar romano procura
explicar a razão por que os romanos desprezavam os judeus.
Segundo ele, Moisés haveria instituído certas práticas
religiosas a fim de afrontar as demais religiões do mundo. Sendo
assim, ele teria instituído o sacrifício de bois para provocar
os adoradores do deus egípcio Ápis. Da mesma forma, o sacrifício
de cordeiros teria a finalidade de provocar outro deus egípcio,
Amon. Ele teria proibido a ingestão de porco, porque os judeus
teriam sido supostamente acometidos por uma enfermidade própria
daqueles animais. Finalmente, segundo Tácito, os judeus
adorariam o asno e lhe teriam feito uma estátua porque teria
sido esta criatura que os teria guiado a uma rocha, na qual havia
uma fonte de água, no momento em que estes pereciam, no deserto,
a caminho de Canaã.
No parágrafo
seguinte o historiador também acusa o sábado de ser ocasião de
contemptissima
inertia, “a
mais desprezível ociosidade.” Como se percebe, mesmo que uma
acusação seja feita, isso não garante, de modo algum, sua
veracidade. A calúnia de Tácito é contradita por seus próprios
escritos uma vez que ele, na mesma obra, nos informa que, quando
Pompeu, o Grande, invadiu Jerusalém, o general romano entrou no
templo dos judeus a fim de descobrir os mistérios e os tesouros
de sua religião e não encontrou nenhuma estátua ali.
As
outras referências à onolatria por parte de judeus ou cristãos
são meras repetições do texto de Tácito. Isso ocorre com
Plutarco, em seu Simpósio
4.5, e Ápio de Alexandria, em seu livro Contra
os Judeus.
Tertuliano vigorosamente se opõe contra tal calúnia ao dizer,
em sua Apologia
14, que os inimigos dos judeus certamente inventaram
tal fábula para denegrir a veracidade do milagre realizado por
Moisés, quando este extraiu a água da rocha. Com efeito,
Tertuliano, em seu tratado Contra
os Gentios
1.14 (em latim, Ad
Nationes),
devolve a acusação aos romanos, dizendo que não eram os cristãos
que adoravam asnos, mas os próprios romanos, já que estes
tinham muito respeito por Epona, a deusa dos estábulos, freqüentemente
representada por estes como sendo parte mulher e parte animal.
Contudo,
ainda que não proveniente de Tácito, não se pode negar que os
cristãos primitivos tenham sofrido a calúnia de adorarem um
asno. Disso temos provas literárias, e arqueológicas. A
principal prova arqueológica é a caricatura descoberta nas
escavações de grande escala que se realizaram no Monte
Palatino, entre 1846 e 1857, às custas de Nícolas, o Imperador
da Rússia. No final do outono de 1856, quatro saletas foram
desenterradas próximo a uma exedra
semi-circular
no assim-chamado “Palácio dos Césares”, na extremidade
sudoeste do monte, não muito distante da Igreja de Santa Anastácia.
Nas paredes dessas pequenas câmaras, o Padre Garrucci encontrou
alguns “graffiti” e, entre eles, um rude desenho de um homem
contemplando um asno crucificado, acompanhado dos dizeres Alexamenos
sebete theon,
“Alexamenos adora o seu Deus”.
Após estudar a
inscrição, o arqueólogo concluiu que ela pertencia ao terceiro
século depois de Cristo.
A despeito de seu
caráter blasfemo, o “graffito” assume grande importância,
portanto, por ser a mais antiga representação da crucifixão de
Cristo. Nas demais câmaras foram também encontrados outros
“graffiti” de teor jocoso escritos, provavelmente, por alunos
da escola imperial, reclamando de trabalhos excessivos ou
gabando-se de terem concluído seu curso de estudos. No início
do ano de 1870, o arqueólogo italiano L. C. Visconti descobriu,
numa outra parte do palácio, um “graffito” com as palavras Alexamenos
fidelis,
“Alexamenos é fiel”. O termo “fiel” seria, com muita
probabilidade, incompreensível a um pagão e, por isso,
conjectura-se que o próprio Alexamenos tenha sido quem o
escreveu como uma resposta às provocações de seus colegas.
Outra
situação arqueológica que sugere a calúnia da onolatria vem
de Pompéia, a famosa cidade italiana destruída pelo Vesúvio em
79 A.D., época contemporânea ao início da pregação do
evangelho pelos cristãos. Um “graffito” encontrado, em 1862,
pelo arqueólogo alemão Alfred Kiessling, em uma das casas da
assim-chamada Rua da Sacada (Vico del Balcone Pensile), faz uma
advertência aos transeuntes de que aquele não era um lugar para
os ociosos. É interessante, contudo, que outros dois
“graffiti” ali existentes sugerem que a casa era um local de
reunião dos cristãos. Um “graffito” com os dizeres audi
christianos (“ouçam
os cristãos”) pode ser, exceto o Novo Testamento, a mais
antiga referência aos cristãos.
O outro
“graffito” escrito numa caligrafia diferente pode ser uma
reprovação ao trabalho dos cristãos na casa: “aqui, uma mula
dá instruções às moscas”. Se o contexto é mesmo cristão,
o “graffito” confirmaria a difusão da calúnia para além
dos limites da metrópole romana.
Entre
as provas literárias de que os cristãos foram, de fato,
caluniados com a acusação da onolatria está a referência de
Tertuliano, em sua Apologia
16, de que, em seu tempo, estava circulando, em Roma,
um quadro que retratava um asno, vestido com a toga e segurando
um livro, em pé, como se ensinasse, acompanhado da inscrição
“o deus dos cristãos onokoietes”.
Ninguém sabe exatamente o que significa a palavra onokoietes.
O
mais renomado dicionário do grego antigo (Liddell & Scott)
atribui-lhe o significado de “aquele que permanece no estábulo
dos asnos”. Contudo, outros especialistas têm proposto
interpretações alternativas, incluindo “aquele que tem patas
de asno”, “aquele que foi gerado por um asno”, “aquele
que tem a cabeça de um asno”, etc.
Essa declaração
é corroborada por uma gema antiga, cuja origem se desconhece,
que apareceu no séc. XVII na coleção do antiquário de P.
Stephanonio Vicentino, e que também retrata um asno no ato de
ensinar. Da mesma forma, Minúcio Félix, o primeiro apologista
do Cristianismo, reconhece, em seu Octavio
9, que a calúnia já estava em circulação tão cedo
quanto o fim do séc. II. Finalmente, nós sabemos, por intermédio
de João Crisóstomo (Ad
illum. Catech., Homil. ii in fin.)
que havia cristãos, em seus dias, que usavam medalhas de
Alexandre, o Grande, atadas a sua fronte ou pés, às quais
consideravam como poderosos amuletos. Algumas dessas medalhas
chegaram até nós e geralmente apresentam, no anverso, o busto
do conquistar vestido como Hércules, e, no verso, o desenho de
um asno com a epígrafe DN IHY XRS DEI FILIVS, isto é, “Nosso
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”. A explicação desse
costume pode ser o fato de que durante certo momento do reinado
do imperador romano Alexandre Severo, entre 231 e 235, os cristãos
viram sua boa índole como uma esperança de maior liberdade
religiosa e, por isso, podem ter tentado lisonjeá-lo, cunhando
uma moeda que o comparava a seu homônimo mais famoso e
associando-o, também, com a humildade do Rei dos reis que
adentrara Jerusalém montado em tão humilde montaria.
Assim,
ao que parece, a calúnia da onolatria originou-se na interpretação
que Tácito fez de um episódio do livro de Êxodo, em referência
específica aos judeus. Com efeito, Epifânio, em sua obra Contra
as Heresias dos Gnósticos (C.
Gnost. Haeres. 26),
afirma que os judeus adoravam um deus chamado Sabaote que era
metade homem e metade asno. Desconhece-se, contudo, a razão por
que esta calúnia foi extrapolada aos cristãos. Talvez isso se
deva às circunstâncias do nascimento de Jesus e às representações
sob a forma de presépio que colocam o bebê Jesus numa
manjedoura com um boi e um asno. Outra possibilidade é que a
associação com o asno se deva à sua entrada triunfal em
Jerusalém montado em um desses animais (cf. Mt 21:5; Zc 9:9).
Conclusão
Nunca
existiu qualquer ligação entre o nome )Ihsou=v
[Iesous] e a
onolatria. Nenhum escritor antigo sugere isso. Se os antigos
cristãos, muitos dos quais falavam aramaico, hebraico, latim e
grego, jamais perceberam qualquer ligação entre o final da
palavra Jesus e o termo hebraico para cavalo, como é possível
que alguns cristãos modernos que não falam qualquer uma dessas
línguas possam insistir em tal conexão. Sugerir, com base em
mera semelhança acústica, que as letras finais do nome de Jesus
se relacionem com a palavra hebraica seria o mesmo que dizer que
a etimologia da palavra portuguesa “vendedor” seria “aquele
que vende dor” uma vez que existe semelhança acústica entre o
sufixo –dor
e a palavra
“dor”.
O
nome de )Ihsou=v [Iesous]
é aquele com o qual Ele mesmo se apresenta a Paulo (cf. Atos
9:5; 22:8; 26:15). É também o nome que os próprios anjos usam
em referência a Ele por ocasião de sua ascensão aos céus
(Atos 1:11) e é um anjo que ordena a Maria que seja dado ao
Salvador (cf. Mateus 1:21). O nome não é, portanto, nenhum
acidente. Infelizmente, a tradução portuguesa de Atos 11:20
obscurece um pouco o significado da expressão grega euaggelizomenoi
ton kurion Iesou,
que não significa “anunciando o evangelho do Senhor Jesus,”
mas “anunciando que o Senhor Jesus é a boa nova.” Além
disso, Filipenses 2:10 declara que ao nome de )Ihsou=v
[Iesous] se
dobram todos os joelhos, nos céus, na terra e embaixo da terra.
A força do nome )Ihsou=v
[Iesous] aparece,
assim, plenamente declarada no Novo Testamento. Anunciar o
evangelho é, com efeito, anunciar o nome de )Ihsou=v
[Iesous].
A
hipótese de que o nome de Jesus deva ser pronunciado [wvy
[Ieshuah] por
terem sido os evangelhos supostamente escritos em hebraico é por
demais forçada para que receba qualquer consideração séria.
Se fosse verdade que os evangelhos tivessem sido escritos
originalmente em hebraico, como é que se poderia explicar o fato
de que hoje existam, em diversos museus e bibliotecas espalhados
pelo mundo, cinco mil e quinhentos manuscritos gregos antigos
(completos ou fragmentários) do Novo Testamento, treze mil
manuscritos em outras línguas antigas para as quais foram desde
cedo traduzidos, vários milhares de citações dos pais da
igreja em latim e grego,
mas nem sequer um
único manuscrito de um evangelho em hebraico?
Não
há nenhuma justificativa histórica ou lingüística para
qualquer rejeição do nome )Ihsou=v
[Iesous] como
tendo sido, de fato, o nome empregado por Cristo. Tanto os
melhores e mais antigos manucritos assim grafam Seu nome, quanto
é impossível de contradizer o esmagador testemunho literário a
seu favor. Além disso, apesar de o nome não ser freqüentemente
atestado nas primeiras inscrições cristãs, isso se deve, sem dúvida,
ao respeito que o nome gozava na comunidade cristã primitiva.
Milton
L. Torres é professor de língua grega e arqueologia bíblica
no Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia. Sua formação
inclui um bacharelado em teologia, obtido em 1984; uma
licenciatura em letras, obtida em 1988; um mestrado em lingüística
pela Universidade Federal da Bahia (1996); e outro mestrado em língua
grega pela Universidade do Texas (2001), nos Estados Unidos.
Atualmente se prepara para concluir sua tese de doutorado em
arqueologia também pela Universidade do Texas. Sua experiência
no ensino de línguas é superior a vinte anos, tendo ensinado
português e inglês por mais de quinze anos e tendo ensinado
grego, na Universidade Federal da Bahia e no Seminário
Adventista, por um período pouco inferior a dez anos.
Segundo
o Dicionário
de Oxford,
um obra publicada em inglês acerca dos principais documentos da
igreja cristã, a Epístola
de Aristeas foi escrita originalmente em grego,
provavelmente entre 200 a.C. e 33 A.D.
A
coleção de Oxyrhynchus inclui milhares de fragmentos de papiro
encontrados em 1897 em um vilarejo egípcio cerca de 15 km a
oeste do Nilo perto da cidade de Behnesa.
Apenas as formas latinas Gesua (no masculino) e Gesue (no
feminino) são encontradas como nomes próprios
nas catacumbas e isto apenas no séc. VI A.D. e apenas na
Catacumba de Venúsia.
O Talmude é uma coleção de várias tradições judaicas e
explicações orais do Antigo Testamento escrita a partir do séc.
II A.D. Em
qualquer caso, a formação de )Ihsou=v
[Iesous]
a partir de [wvy
[Ieshuah]
é séculos mais antiga do que o período cristão. Os primeiros
cristãos simplesmente adotaram a forma grega corrente
equivalente ao nome hebraico [wvy
[Ieshuah].
Eles fizeram isso de forma natural e sem nenhuma política
deliberada de escolher nomes gregos que tivessem um significado
equivalente e inteligível...
Orazio
Marucchi, Christian
Epigraphy: An Elementary Treatise with a Collection of Ancient
Christian Inscriptions Mainly of Roman Origin (Cambridge:
University Press, 1912), p. 96, 99.
De acordo com o historiador, primum
correpti qui fatebantur, deinde
indicio eorum multitudo ingens haud perinde in crimine incendii
quam odio humani generis convicti sunt,
“primeiramente, os confessos membros da seita foram presos;
então, à medida em que eram descobertos, um grande número
deles era condenado, não tanto por causa do incêndio, mas pelo
crime de odiarem a raça humana.”
De acordo com Tácito, effigiem
animalis, quo monstrante errorem sitimque depulerant,
“eles dedicaram, em um altar, uma estátua do animal que os
ajudara a acabar com sua peregrinação e sede.”
É
comum a terminação –ete
em lugar de –etai
nas inscrições
antigas.
Cf. J. Spencer Northcote & W. R. Brownlow, Roma
Sotterranea (London:
Longmans, Green & Co., 1879), v. 2, p. 345-352.
Paul Berry, The
Christian Inscription at Pompeii (Lewiston:
Edwin Mellen, 1995).
Cf. Northcote & Brownlow, p. 347.
Cf. Wilson Paroschi, Crítica
Textual do Novo Testamento (São
Paulo: Vida Nova, 1993).

