DESESPERO DE CAUSA 

A defesa do Th.D. Ozeas Caldas Moura na Revista Adventista de julho/2007 através do artigo Batismo em nome de quem? é aquilo que caracterizamos como “desespero de causa”. Quando um Doutor em Teologia da Igreja Adventista do Sétimo Dia escreve um artigo na seção de Crítica Textual pretendendo defender a fórmula trinitária de Mateus 28:19 como sendo comprovadamente autêntica, isto deveria ser considerado, não somente como uma atitude apaixonada por parte de alguém que tenta desesperadamente tornar válido um dos pouquíssimos textos bíblicos diretos que poderiam favorecer o dogma católico da Santíssima Trindade, mas principalmente como um demérito ao nível acadêmico-teológico praticado nesta igreja.

Nenhum teólogo sério e nenhuma igreja onde se pratica uma teologia de respeitável nível acadêmico se comprometeria em defender algo tão incerto e questionável, quando, por outro lado, existem várias outras referências de peso que desautorizam dogmatizar em torno da legitimidade de Mateus 28:19. Uma delas é o comentário deste texto na Bíblia de Jerusalém, considerada pelos especialistas em crítica textual como uma das melhores versões bíblicas:

“É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar “no nome de Jesus” (cf. At. 1,5+;2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade.”

Outras referências:

ENCICLOPEDIA BRITÂNICA, 11a Edição, Vol.3 Pg. 365-366, "A fórmula batismal foi mudada do nome de Jesus Cristo para as palavras Pai, Filho e Espírito Santo pela Igreja Católica no 2º Século.” Volume 3 pag. 82 "Sempre nas fontes antigas menciona que o batismo era em Nome de Jesus Cristo."

ENCICLOPEDIA DA RELIGIÃO - CANNEY, pg. 53, "A religião primitiva sempre batizava em Nome do Senhor Jesus até o desenvolvimento de doutrina da trindade no 2° Século."

ENCICLOPÉDIA DA RELIGIÃO - HASTINGS, Vol.2 pg. 377-378-389, "O batismo cristão era administrado usando o nome de Jesus. O uso da fórmula trinitariana de nenhuma forma foi sugerida pela história da igreja primitiva; o batismo foi sempre em NOME do Senhor Jesus até o tempo do mártir Justino quando a fórmula da trindade foi usada."

TYNDALE COMENTÁRIOS DO NOVO TESTAMENTO, “... a verdadeira explanação porque a igreja primitiva nunca administrava o batismo em nome dos três, é que Mat. 28:19 não significava uma fórmula batismal. [Jesus] não estava dando instruções das palavras que deveriam ser usadas no rito batismal, mas como já havia sugerido, que a pessoa batizada tornava-se posse do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

A sutileza dos teólogos trinitarianos da IASD é impressionante! Perceba, por exemplo, sua argumentação: “O ônus da prova cabe a quem afirma, sem bases sólidas, de que Mateus 28:19 é uma interpolação ou inserção posterior ao texto do Evangelho de Mateus”. Em primeiro lugar, “bases sólidas” nenhum dos lados possui, nem quem defende o texto como legítimo, nem aqueles que defendem uma interpolação posterior. Tudo que existem são algumas evidências bíblicas, textuais e históricas que SUGEREM uma inserção posterior e outras que SUGEREM sua legitimidade. O que faz um pesquisador honesto e sensato? Investiga todas as evidências e, como nenhuma delas é conclusiva, não defende categoricamente nenhuma das posições, mas limita-se a apresentar ambas possibilidades. Em segundo lugar, esta conversa de que o “ônus da prova” cabe somente a um dos lados chega a soar ridículo. Qualquer um dos lados que quiser ser categórico na defesa de uma posição precisa apresentar “provas” conclusivas.

Este assunto já veio à tona na Revista Adventista de Maio/2005 quando o Dr.José Carlos Ramos acusou Ricardo Nicotra de afirmar em seu livro Eu e o Pai somos um de que Mateus 28:19 “teria” sido uma adulteração posterior à elaboração do original. Na ocasião esta acusação foi refutada por Nicotra da seguinte maneira:

“No entanto, em nenhuma parte do livro foi feita esta afirmação. Não é possível provar definitivamente que Mateus 28:19 não fazia parte do original, mas também não podemos provar que este texto estava no original. Essas impossibilidades são devidas a uma razão bem simples: Não temos acesso aos originais da Bíblia”.

(http://www.adventistas.com/maio2005/mateus2819 nicotra.htm). 

Na seqüência ele continua argumentando: 

“O que temos (e o que o livro "Eu e o Pai Somos Um" procura mostrar) são evidências de várias naturezas (textual, histórica, contextual, lógica, exegética) que nos conduzem à convicção de que o texto foi, muito provavelmente, adicionado posteriormente”. (Idem – grifo acrescentado).

Perceberam? Tudo fica no campo das evidências e das possibilidades. Nada de conclusivo existe. E quanto a isto, Ricardo Nicotra foi intelectualmente honesto em reconhecer. O que já não aconteceu no caso do artigo do Dr.Ozeas que analisa apenas unilateralmente a questão e tenta induzir de forma manipulativa e tendenciosa o leitor aceitar seus pontos de vista como sendo uma verdade comprovada. Isto está evidenciado na maneira como conclui seu artigo:

“Após essas considerações bíblicas e históricas, podemos resumir o assunto da autenticidade da fórmula batismal em Mateus 28:19 dizendo que: 1. É bíblica, estando na mesma linha daquelas passagens que mostram que Deus é único em natureza, mas três pessoas divinas”.

Considerações bíblicas? Que considerações bíblicas foram feitas no artigo? Em nenhum momento foi feito uma análise contextual ou exegética do texto em questão. O que o Dr.Ozeas fez foi se limitar a uma análise parcial essencialmente histórica sob a ótica da crítica textual e nada mais. Às vezes chego a pensar que estes teólogos adventistas que se aventuram a defender a Trindade perderam o significado da palavra “bíblico”.

Agora, cá entre nós, quando o Dr.Ozeas argumenta que sua conclusão “é bíblica, estando na mesma linha daquelas passagens que mostram que Deus é único em natureza, mas três pessoas divinas”, ele já disse tudo! Realmente os argumentos “bíblicos” que apontam para a legitimidade de Mateus 28:19 estão no mesmo nível daqueles outros dez argumentos do Dr.Marcos de Benedictus para se crer na Trindade.

Sem mais comentários!

Segue abaixo, de autoria de Robson Ramos, sete argumentos bem diferentes daqueles sete apresentados no artigo, para o leitor entender a diferença entre uma argumentação e outra:

1. Se Jesus Cristo realmente proferiu a fórmula batismal trinitariana como a encontramos ali, os discípulos, mesmo depois do Pentecostes, não a entenderam corretamente e batizaram unicamente em nome de Jesus, pois não há nenhum relato de batismo trinitário na Bíblia. (Atos 2:38; 8:16; 10:48; Gálatas 1:12; etc.)

2. Se Ele realmente a proferiu, os relatos correspondentes nos outros Evangelhos sinóticos deveriam contê-la. Veja, porém, que Marcos 16:15-17 e Lucas 24:46-47 referem-se apenas ao Seu nome.

3. Observe o contexto de S. Mateus 28:19:

v. 16 -- Discípulos vão para a Galiléia, para o monte designado.

v. 17 -- Surge Jesus. Alguns O adoram, outros se recusam.

v. 18 -- Jesus fala então aos que duvidavam: "Toda a autoridade ME foi dada no Céu e na Terra." Quer dizer, não tenham dúvida de que posso ser adorado, porque meu sacrifício foi aceito e o Pai me concedeu outra vez toda a autoridade como Filho de Deus.

v. 19 -- Jesus diz que todos eles poderiam, portanto, ir e fazer discípulos em Seu nome. (Não teria porque referir-se à trindade, uma vez que não era isso o que estava em discussão. O que os discípulos queriam saber é se Ele estava autorizado a ser adorado.)

4. Observe também o contexto dos Evangelhos, Jesus nunca ordenou que fizessem milagres nem se reunissem, em nome da trindade. Pelo contrário, diz que estará presente entre os que reúnem em Seu nome; atenderá aos que pedem em Seu nome; que os discípulos fariam milagres em Seu nome, etc. 

5. O historiador Eusébio de Cesaréia, que conheceu manuscritos mais próximos do original de Mateus, escrito provavelmente em hebraico, dezessete vezes afirma que a ordem evangélica era ir a todas as nações e fazer discípulos em Seu nome. Somente depois do Concílio de Nicéia, incluiu a fórmula trinitariana -- "batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" -- em suas referências a Mateus 28:19.

6. Em Primeiros Escritos, págs. 220-221, Ellen G. White declara que homens doutos modificaram o texto bíblico, quando havia poucos exemplares das Escrituras, e incluíram nelas expressões que favoreceram a tradição humana. Um exemplo inegável disso é João 5:7-8. Ora, não haveria necessidade de favorecem a trindade se ela realmente fosse uma doutrina bíblica! O mesmo deve ter acontecido com Mateus 28:19 (diante dos argumentos que já apresentamos acima).

7.  A nova Bíblia de Jerusalém, totalmente revisada e atualizada, admite quanto a Mateus 28:19: "É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico POSTERIORMENTE fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro de Atos fala em batizar 'NO NOME DE JESUS'. MAIS TARDE deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da trindade."

(Fonte:http://www.adventistas.com/trindade/textos_curtos/trnd mateus_2819.htm)

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