ECLESIASTES 

Eclesiastes é daqueles livros difíceis de entender!

Quero aplaudir de pé o apóstolo Pedro, audacioso ao afirmar que “o nosso amado irmão Salomão nos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender” [II PEDRO 3:15 e 16 – versão livre, onde o Salomão fica por minha conta].

Eclesiastes é diferente! Temos diante de nós um livro inspirado pelo Espírito Santo e escrito por um sábio detalhista.

Tomemos, como exemplo, as observações de Salomão sobre a velhice.

ECLESIASTES 12:3-6: “no dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus moedores da boca [os teus dentes], por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas; e os teus lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em alta voz, te levantares à voz das aves [sono superficial], e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem; como também quando temeres o que é alto, e te espantares no caminho, e te embranqueceres [cabelos brancos], como floresce a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça” – [grifos acrescidos]..

Em três versos, Salomão descreve um ancião de cabelos brancos que desperta com o cantar do galo, já sem equilíbrio, com as mãos trêmulas, reumatismos nos membros inferiores e que progressivamente vai perdendo os dentes, a voz e a audição.

Portanto, não nos atrevamos a interpretá-lo numa primeira leitura e nem após uma leitura superficial. Leia uma, duas ou mais vezes antes de aderir a uma opinião sobre o pregador e sua mensagem.

Não fique com a primeira impressão! Outros já cometeram esse erro.

No meu caso, logo de cara, pensei que a doença do pregador fosse depressão: “Vaidade de vaidades! Diz o pregador; vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” [Eclesiastes 1:2]. Olhando para os dois primeiros capítulos de Eclesiastes, eu disse a mim mesmo: “Esse pregador não seria convidado a proferir tal sermão na IASD do Sudoeste! Um púlpito onde Deus é glorificado não tem espaço para quem aborrece a vida [Eclesiastes 2:17] e o trabalho [Eclesiastes 2:18]. Estou diante de um Salomão no fundo do poço/chiqueiro, enfadado com tantos erros e que num momento de lucidez fez o mea-culpa”.

De repente, minha atenção foi atraída para uma outra versão do pregador: “Coisa maravilhosa é estar vivo” [Eclesiastes 11:7 – Bíblia viva]. Agora, imaginei que a doença do pregador fosse ou uma esquizofrenia – onde o paciente assume uma dupla personalidade – ou um distúrbio bipolar – num primeiro momento, Salomão estava deprê e, mais tarde, numa fase de mania. Olhando para os dois últimos capítulos de Eclesiastes, eu disse a mim mesmo: “Que pregador é esse? É Salomão que está de bem com a vida. O púlpito do Sudoeste já pode ser liberado para esse sábio regenerado, afinal, os jovens da minha igreja merecem ouvir o sermão de Eclesiastes 11:9 e 12:1! Os da terceira idade merecem explicações de Eclesiastes 11:8 e 12:2-7. Que eles entendam que prazer e recreação rimam com a responsabilidade: ‘de todas as coisas Deus te pedirá contas’. De novo: ‘De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más’” [Eclesiastes 12:13 e 14].

Que belas admoestações! Todavia, ainda não adicione este último pregador à lista de favoritos. Pode ser que você mude de idéia após conhecê-lo melhor.

Após algumas releituras, deparei-me com o pregador do capítulo um amoitado nos capítulos onze e doze.

a) Após declarar que “coisa maravilhosa é estar vivo”, o pregador afirma que “tudo quanto sucede é vaidade” [Eclesiastes 11:8].

b) O pregador exorta os jovens a se recrearem tendo em mente o dia de acerto de contas, mas também diz que “a juventude e a primavera da vida são vaidade” [Eclesiastes 11:10].

c) Relembra que os dias da mocidade são os melhores para se entregar o coração a Jesus; no entanto, o refrão se renova em sua boca: “vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade” [Eclesiastes 12:8].

d) Quem poderia editar as palavras “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” [Eclesiastes 12:11] senão o pregador do capítulo um?

Salomão recaiu? Ou ele não havia se convertido? Ou somos nós que não conhecemos o pregador na sua intimidade? Ou somos nós que não entendemos o significado da palavra vaidade?

Recomendo a leitura de Eclesiastes 12:9-11.

O Pregador, além de sábio, ainda ensinou ao povo o conhecimento; e, atentando e esquadrinhando, compôs muitos provérbios. Procurou o Pregador achar palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade. As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor”.

Se eu entendi corretamente, o pregador é sábio, professor e compositor. Como pastor pregou palavras de verdade do início ao fim do livro, de cabo a rabo. Suas repetições podem até ferir os tímpanos e os nossos egos. Todavia, quem reuniu e colocou na boca do pregador esse conjunto de citações? Quem coligiu as sentenças? Jesus Cristo, o melhor Pregador da atualidade. O pregador foi apenas o porta-voz das repreensões.

Quem não concorda que estudar é cansativo [Eclesiastes 12:12]? Estudar é necessário, mas é cansativo. E pode até se tornar um enfado se você tiver que preparar uma monografia, um trabalho de conclusão de curso ou algo equivalente.

Quem não concorda que trabalhar é estressante ou fatigante, mesmo que esteja na profissão que lhe é aprazível [Eclesiastes 2:11]? Se você discorda, o seu achismo não está sendo coerente com a Bíblia: “... maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida” [Gênesis 3:17].

Eclesiastes, portanto, não é fruto de uma mente doentia – depressiva, esquizofrênica ou bipolar –, mas do Espírito Santo que inspirou um sábio a nos mostrar como viver sem perder o foco. Sua biografia sem censura ou sem cortes só foi publicada porque é muito didática. Aqueles pedaços da vida que muitos gostariam de esquecer nos mostram um homem regido a princípio pela sabedoria entregando-se à loucura, “até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida” [Eclesiastes 2:3].

No capítulo um, o pregador já havia pontuado essa preocupação com a transitoriedade da vida: “Geração vai, geração vem; mas a terra permanece para sempre” [Eclesiastes 1:4]. Os homens vêm e vão! Logo, logo são esquecidos. Ao contrário dos humanos, a terra com os ciclos do sol, da água e do vento [Eclesiastes 1:5-7] permanece para sempre.

Se Deus colocou a eternidade no coração do homem [Eclesiastes 3:11], o que já foi feito e o que precisamos fazer para que eternidade nos alcance? A cruz foi a resposta divina para a morte, mas esse problema gigante só será equacionado após o acerto de contas final. Durante nossos poucos dias temos a oportunidade de viver com responsabilidade o presente, mas de olho no futuro. Não podemos imitar o rei fazendo coisas sem sentido. Essa é a preocupação do pregador. “Que fará o homem que seguir o rei?” [Eclesiastes 2:12]. O comentário da pergunta dois da Lição da Escola Sabatina é muito ilustrativo. “Pense, novamente, sob a perspectiva na qual ele estava escrevendo: os anos de sua vida, tão cheios de potencial e promessas, foram desperdiçados em coisas que não duram, coisas sem valor permanente. Quando a maior parte de sua vida é feita de hebel, de vapor, ao chegar ao fim dessa vida, tudo pode parecer como um vapor, porque passou muito depressa e é tão cheio de coisas sem sentido” – Eclesiastes – LES Primeiro Trimestre/2007, Edição do Professor Adultos, página 18.

Isto me lembra pais corujas que ficam babando com a inteligência e esperteza de seus herdeiros. Quando a criança ainda nem sabe falar, mas já entendem o basicão do que os pais dizem, a euforia da família é sem limites. Depois que falam como papagaios e aprendem a fazer gracejos, os pais se orgulham da capacidade intelectual do possível menino prodígio. Deixam a impressão de que seus filhos são os melhores cérebros da face da terra. Mas, aos vinte anos muitas lágrimas já foram derramadas por causa das atitudes sem sentido, das futilidades. E a vida? Bem, o vapor continua indo embora.

A vida não é como um brinquedo do Paraguai, aquele que nós compramos mesmo sabendo que no outro dia já estará estragado; ela continua correndo velozmente! Convide o Criador para se divertir com você e, assim, não terá medo do dia do acerto de contas. Na eternidade os vapores desaparecerão, as vaidades deixarão de existir.

João Marques

jota_ferreiramarques@yahoo.com.br

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